domingo, 19 de agosto de 2012

Princesa

Vamos sentir a tua falta. Chegaste e partiste em silêncio. Vieste sem que o tivéssemos planeado e foste porque assim teve de ser. Fica o vazio do teu corpo a ocupar o espaço que escolheste usar para curar as feridas de um passado rude. E esse lugar, meu amor, será sempre teu. Não ocupaste mais do que o espaço que julgavas ser merecedora porque lá atrás, um dia, alguém  deve ter dito que não te conseguia dar mais do que o medo de cuidar e amar. Por isso, acredito, ocupaste um espaço físico tão pequeno nesta casa (porque insistias em ficar apenas pela cozinha?). Tiveram medo de te amar porque esse alguém não foi amado o suficiente para entender que o amor (quando é mesmo amor) não olha a cores, tamanhos, raças. Carregas esse karma contigo minha pequenina, mas o futuro desenha-se à tua frente com balões e arco-íris. Fomos apenas um ponto de partida para um novo sorriso na tua vida e, tenho a certeza, nunca mais vais voltar a sentir a dor do abandono. Dou-te a minha palavra.

Costumamos dizer que tiveste sorte, a tua vida podia ter acabado no momento que antecedeu o olhar de alguém (ser luminoso, obrigado!) que te tirou do jardim onde foste deixada. Sim, Deus olhou por ti, mas os sortudos também somos nós. Somos (cada um à sua maneira) pequenos alunos da mestria que carregas na coragem de aguentares tormentos e ainda assim continuares a acreditar em nós (humanos) e vives esta crença na prática, com lambidelas sem fim, com um olhar que procura a luz em vez da escuridão.  Sinto-me a pessoa mais abençoada do mundo por me teres dado a oportunidade de experiênciar o amor incondicional sob a forma de desapego. Tens uma família neste momento que espera por ti, que te disse sim sem saber quem és, que te ama ainda antes de te conhecer. Olha só a forma quentinha que a Vida encontrou para te pedir desculpa pelo sofrimento do antes. Depois. Bem, depois virá o que Deus quiser. Mas uma coisa é certa: estamos aqui para o que der e vier e a porta da nossa casa está sempre aberta para ti. Vamos acompanhar o teu crescimento que não promete muitos centímetros! A veterinária disse que és arraçada de pincher com outra raça que agora não me lembro, mas que tens ar de ser bem tranquila e fugir ao estereótipo de cão peluche estridente. Confesso, gostava de ter ouvido a tua voz mais vezes, mas sei que ainda procuras uma forma de te expressares sem sentires estar a ocupar demasiado espaço. Ladra, mas ladra bem alto para que percebamos que és tão merecedora de amor quanto quem fala, mesmo que fale muito alto. 

Vou usar bons argumentos com o K. e a V. para te raptar alguns fins-de-semana (tudo dentro da legalidade!) e brincares com o gatinho Guedes que foi com a tua cara desde que te viu pela primeira vez. E tu também gostas dele que os pulinhos que usas para o desafiar para a paródia não enganam ninguém. Mas deixa-me que te diga que amor entre cadelinha e gato é coisa que pode mudar o Mundo!

Obrigado a todos quantos participaram no teu processo de renascimento, são seres muito especiais. Vamos sentir a tua falta (e das amostras de farturas mal cheirosas que libertavas desse intestino xxs!). Vais daqui como “Princesa”, “Canela”, “Amor”, “Pequenina”, “Coisa boa”, “Doce”, mas o teu nome será (quase de certeza) o nome de uma deusa. E sente-te merecedora, ocupa o espaço de uma casa e não apenas a cozinha. Porque tu mereces mais. Muito mais. Até breve “Princesa”**

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Assim foi




Quando já não souber respirar, vou lembrar-me do dia em que consegui ser o vento que passa, o barulho da água que corre da torneira, as silabas que te consegui contar. Esse dia não vou esquecer. Marcou-me porque vivi o que falam os grandes mestres orientais. Das palavras deles fiz a minha vivência. Se foi possível uma vez, será possível outra e outra e outra. Assim queira a minha capacidade de persistir.



Foto by Carlos Gila

domingo, 29 de agosto de 2010

Fui naquele dia


O dia amanheceu chuvoso. Esta era a chuva que ele esperava ser capaz de apagar os passos deixados pela movimentação repentina da noite passada. " Assim ninguém vai poder acusar-me do que quer que seja".

Os dias vão longos, assim como é comprida a nossa vontade de mudar e depois a vontade transforma-se em apatia e desalento. Ele sabia o tamanho exacto da sua preguiça. E ela sabia exactamente que a vida lhe pedia que soubesse esperar. Ela sabia que havia chegado a hora de ser crescida. Mas o tamanho dele não era o tamanho dela, e nesta diferença vivia o sonho de serem perfeitos um para o outro." É contigo que quero despedir-me deste mundo", diziam ambos como se soubessem que depois deste mundo há outro, outros, vários mundos.

Lembro-me de uma vez os ter ouvido dizer que na imperfeição de serem quem são estava o epicentro da felicidade. Na altura, entre um copo de vinho tinto e outro, julguei-os certos. Agora parece-me que este mundo criou mais dois loucos. Dois seres que se projectam com demasiada facilidade um no outro. Ainda na semana passada os convidei para jantarem comigo. Aceitaram o convite com muito agrado, e demasiada honra, mas depois o jantar revelou-os na sua densidade. E eu estava lá como que numa promessa de testemunha. O observador que não quer avançar nas palavras.

Eu também tenho sonhos, mas prefiro vive-los de pé no chão, encostadinho à realidade das 24 horas. Se depois o dia se revelar mais longo lá estarei de sorriso aberto e relógio no bolso. Por enquanto quero apenas viver sem memória, só para não ter de recordar o tempo do que aconteceu entre eles.

Conheci-os numa solarenga manhã de verão. Num daquelas dias em que temos a certeza que Deus existe. O meu cão corria sem regras pelo areal extenso da praia. E como quem não conhece a palavra "inoportuno", tropeçou nas pernas delicadas dela. Demasiado delicadas. Ela caiu, eu gritei e ele correu em direcção a ela. Foi uma corrida carregada de amor. Não estou a falar de amor romântico. Era antes o amor de quem cuida porque sabe que no cuidar está a luz do terno abraço. " Desculpe...está tudo bem consigo?", balbuciei sem hesitação. "Sim", respondeu ela já nos braços dele. Lembro-me de na altura os invejar. A fortuna do amor é mais rara do que a fortuna do poker. E eu tinha azar nas duas. " É cachorro ainda, mal sabe ele o que faz. Desculpem o incomodo". Depois almoçámos os 3, ou 4 se o cachorro contar como ser pensante, e ficámos a conversa horas sem fim. " Tenha casa pertinho. Já está a ficar tarde para se porem a caminho de Lisboa. Se quiserem podem dormir aqui. Garanto-vos que ele vai ficar preso, sem a mínima hipótese de pensar sequer em belas pernas femininas". Rimo-nos e entrámos no meu carro.

Existem minutos, tempos do tempo, que parecem ser feitos para nos lembrarem que nada acontece por acaso. Nesta viagem de carro pareceu-me que os conhecia desde sempre. Ela porque tinha os mesmos valores que eu. E ele porque insistia em acreditar que a vida é uma tremenda galhofa. Eu era uma soma deles os dois. E se aos dois subtrair-mos a ideia de eternidade, lá estava eu.


A minha história é longa, mas curta se a uma conclusão quisermos chegar. Neptuno norteava a minha vida, e neste domínio a ideia predominante era a de amor Universal.
Foto by Carlos Gila

sexta-feira, 9 de julho de 2010


Nós, uma comunidade de humanoides com pouco nexo mas com uma ambição de sentido, imaginamos que um dia iremos governar o mundo!! Nunva ouvi afirmação mais utópica!!!

Primeiro: quem somos nós para acharmos que um dia iremos ditar as regras deste mundo?? E mais: quem é o mundo que nos permite viver nele como se donos da verdade fossemos? ... uma dúvida de cada vez!!

O mundo é só um conjunto de átomos, quimicas incessantes e possibilidades infinitas que nos perturbam a alma e sobre o qual pouco mais temos a dizer...nós somos exactamente o mesmo, acrescentando aos átomos uma necessidade de sermos mais e mais e de acharmos que o mundo orbita à volta do nosso umbigo! Fernando Pessoa diria: "Deixa passar o vento, sem lhe perguntar nada. Seu sentido é apenas ser o vento que passa." Acrescentaria: " sê quem és, sem te perguntares quem és! Sê apenas o Ser que respira!".

Trata-se de uma dança, onde cada um troca os passos que conhece pelos tropeços que farão dele apenas "o vento que passa".

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Parabéns Sofi


Quando o tempo perde as horas,
aproximo-me de ti com a sensação de que o ponteiro do relógio deixou de fazer
...tic-tac...

Aproximo-me da tua luz de coração aberto,
liberta do medo de falhar
...faltar...

Tens asas feitas de penas coloridas,
penas de algodão
...doce...

E não quero que adormeças.
Quero-te assim desperta.
Apaixonada
Corajosa
Obstinada
Rebelde
Doce
Aventureira
Destemida
Atenta

O despertador toca, mas o momento pede
...contemplação...
...emoção...
...coração...

Onde nos conhecemos nós?
Aqui não foi.
Aqui é que não foi porque os anjos não são de cá,
e tu sabes voar!

Voa, voa pena voa.
Dança e voa,
sonha, voa.

Ai como gosto de ti...
Do teu saber Ser,
como ninguém sabe Ser.
É isso que em ti amo.
O Ser que és antes de fazer.

Mas pratica o verbo Ser,
conjuga a tua alma comigo.
Eu Sou,
Tu És,
Nós Somos,
na eternidade marcada pelo principio do Verbo,
Revejo, vejo, prevejo .

Das tuas palavras, construo as minhas convicções.
Ai, como o meu coração fica quentinho perto de ti.

Perto, pertinho, abraçada a ti.
Fazes-me cócegas com o teu algodão doce.
Soltam-se gargalhadas.
Olho para ti e silencio
.
.
.
.
.
Olha para ti e silencia
.
.
.
.
Do Budismo se fez o sufismo,
e o surfista surfa sofregamente,
a onda que vem e que não controla,
aceita-a apenas,
no equilibrio fluido em cima de uma frágil prancha.

E tu meu anjo?
Que ondas irás surfar inspirada no sufismo do Budismo,
que dita o Dharma na lição do Karma?

Sorte a minha ter-te na roda do samsara,
na barriga do Buda ditoso
que ditou o nosso encontro.

É de pessoas como tu que este Planeta precisa.
E de surfistas também,
daqueles que entram no mar
só para estarem mais perto do Sol
quando ele se poe.

Supoe que a borboleta que poisa no teu ombro,
quer aprender contigo?
Ela toca-te ao de leve,
como que a querer apenas fundir-se na tua luz.
Metamorfose alquimica!
A borboleta violeta a vestir-se com o teu arco-iris,
a dar-te as boas vindas.

"Bem-vinda ao planeta Maya,
onde a ilusão da visão nos afasta da certeza subtil do coração.
Persiste,
acredita,
ama,
abraça,
sonha.

Sonha os sonhos que a Vida tem para ti."

Abraço-me à emoção de ter aqui tão perto.
Como é bom ter-te nesta viagem comigo.
Obrigada,
Obrigada,
anjo de penas doces, alma colorida.
Que os teus olhos continuem a ser a luz,
luz ao fundo do túnel.
As estrelas que lá do céu nos pedem que olhemos
para CIMA,
ALÉM,
mais ALÉM.

Aqui é o teu lugar,
e não sendo a tua verdadeira casa,
é um lar emprestado pela Borboleta violeta
para que lhe possas ensinar a voar.

Muitos parabéns meu anjo, plena de singularidades humanas, com asas de borboleta, penas de algodão doce.

Amo-te minha querida Sofia, minha prima do coração :)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Querida mãe...


Procuro por mim um pouco mais todos os dias. Quero ver-me crescer fiel a mim própria, segura de que as minhas raizes têm o poder de me fazer voar. E de que as minhas asas não me deixarão perder o chão. Dá-me um gozo tremendo seguir o meu norte, mesmo quando à minha volta gritam direcções que não me pertencem.

Hoje vivo um misto de emoções. Feliz porque me observo mais sólida, menos frágil às criticas, mais consciente do caminho que vou trilhando. Triste porque ainda observo na minha mãe comportamentos que deixam o meu coração desconfortável.

Preocupa-se porque não como carne, mas nunca a ouvi perguntar a razão da minha decisão. Diz que sou louca, mas nunca a ouvi dizer que me respeita tal qual eu sou e que me vai amar independentemente das minhas decisões "insanas". Trata-me por Vera, Verinha, Verocas, Amor...mas saberá a minha mãe quem eu sou???

Diz que gostava de me ver num emprego estável, a viver numa boa casa, que não fizesse tatuagens...mas saberá ela quais são os meus sonhos???

Pergunta-me se ganho muito no meu novo emprego....mas o que eu gostava mesmo era de a ouvir perguntar se sou feliz no que faço...

Quando era mais pequena, ensinou-me a andar, a falar, a ser bem educada...mas não me lembro de algum dia me ter ensinado a sonhar... E, apesar de tudo, tenho-lhe uma gratidão profunda. Amo-a mais do que qualquer coisa neste mundo e tenho a certeza que é a melhor mãe do mundo.

A minha mãe é humana e por isso tem todo o direito, diria mesmo dever, de errar. E em cada alvo que não acertou, vejo que deu sempre o seu melhor. Muitas vezes diz-me: "quando fores mãe, vais entender". Quando esse dia chegar , tenho a certeza, vou abracá-la e dizer-lhe: "tinhas razão". Pedir-lhe-ei desculpas por todas as vezes que gritei com ela. Arranjarei uma forma de lhe pedir conselhos.

Em cada falha dela, tentarei falhar um pouco menos. Mas uma coisa não irei esquecer: a forma como ela me abraça quando o mundo desaba à minha volta. E só quero que um dia o meu abraço lhes saiba tão bem quanto o dela sabe a mim. Nesse dia terei aprendido a lição. Amo-te querida mãe.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Agora


Alguém me avisou que as coisas podiam não correr assim tão bem. Mas ainda assim decidi arriscar. Se não fosse agora, corria o risco de ser nunca. E se fosse nunca, não seria feliz.

Caminho com um passo esvoaçante, seguro e neutro na forma. Poucos sabem a que vou e evito sequer falar. É chegado o momento de pousar as malas e descansar, aguardar na estação à hora que não está marcada.

Ah, só Deus sabe onde vou e como vou. Eu só sei que desta vez não vou ficar parada à espera que outro alguém conduza o meu destino. Eu vou, mas só Ele sabe quando.
Foto Carlos Gila

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Regresso ao Amor - II

" Este processo pode ser tão doloroso que subitamente nos sentimos tentados a recuar. É preciso ter coragem - a este processo chama-se muitas vezes o caminho do guerreiro espiritual - para aguentar as dores agudas da autodescoberta , em vez de escolhermos permanecer na dor entorpecida da inconsciência, que vai durar o resto das nossas vidas."

Regresso ao Amor, Marianne Williamson

Regresso ao Amor

"Nós temos muitas armaduras que se vão acumulando em frente aos nossos corações - uma série de medos mascarados de outra coisa qualquer. Qualquer pessoa que alguma vez tenha passado por uma psicoterapia séria. está bem ciente de que o processo de crescimento pessoal nem sempre é fácil. Nós temos de encarar a nossa própria fealdade.
Nós temos muitas vezes de ficar dolorosamante cientes da impraticabilidade de um padrão antes de estarmos dispostos a abandoná-lo. Muitas vezes parece que, de facto, as nossas vidas pioram em vez de melhorar, quando começamos a trabalhar profundamente em nós mesmos. A vida não se torna realmente pior; nós é que sentimos mais profundamente as nossas próprias transgressões, porque já não estamos anestesiados pela inconsciência.
Já não estamos distanciados, através da negação ou da dissociação, da nossa própria experiência. Estamos a começar a ver a verdade a respeito dos jogos que realizamos."
Regresso ao Amor, de Marianne Williamson

sábado, 4 de abril de 2009

Um dia...Todos

Enquanto o teu corpo descansa no sofá rijo da sala, olho-te e vejo muito além de ti. Adivinho o teu passado, o acordo que fizémos, as viagens em conjunto das quais não guardamos memória, os segredos que nunca iremos revelar. Sinto-te muito mais próximo sempre que fechas os olhos. "Porque será?" ... pergunto-me. Morres para o mundo, e renasces num outro só teu. Num mundo onde eu não existo. Um mundo escasso em sentido, vazio de formas lúcidas. É teu e eu não posso entrar. E não quero. Fico à porta. Alimento a esperança de um dia ser apenas Um mundo. O mundo de Todos.

domingo, 22 de março de 2009

Vale sempre...

Abraça-me mesmo quando da minha boca sair a gramática do medo, os sons do desespero por não querer ser vulnerável, por ter medo de sufocar com a dor.

Enconsta-me ao teu peito quando as lágrimas inundarem o meu pequeno mundo de ilusões e projecções.

Ajuda-me a encontrar o caminho de regresso a casa quando não souber mais em que mundo quero viver.
Vamos juntos para que Ele saiba que valeu a pena. Vale sempre...

Fernando Pessoa

"Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a buscar-nos em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um."
Fernando Pessoa



segunda-feira, 2 de março de 2009

Tu e eu

Se nós fossemos as mãos do mundo
Se nós pudessemos acolhe-lo dentro de nós
Se nós lhe doassemos a nossa Vida


Deixo que a tua voz cale a noite escura da minha alma.
Juntos sabemos que ancoramos mais luz à 5ª dimensão.
Sincronizamos as respirações.
Fechamos os olhos.
Elevamo-nos e deitamos por terra a lei da gravidade.
Vamos lado a lado.
Reverso luminoso da mesma moeda...
...dia e noite...
Agora uma só cara,
o mesmo sonho.
Ausência de polaridades,
unificação das almas.
E nós sempre juntos,
ao longo de séculos e séculos de jornada.
Lembro-me de ti.
Sei quem és.
Vamos estar sempre por perto,
na partilha da mesma crisálida.
Eterna metamorfose,
união única e sagrada.
Dás-me a mão,
dou-te a mão.
E vamos juntos,
até que a última descida seja feita na solidão.
Obrigado companheiro de viagem.
Obrigado por me teres feito chegar até aqui.
Despeço-me de ti agora,
porque o último passo só eu posso dar.
Sozinha,
entregue a mim.
Amo-te e lembrar-me-ei sempre disso.
Nunca te esquecerei.
Mas agora tenho de ir.


As nossas mãos tocam o mesmo mundo
Ele vive dentro de nós
A nossa vida é só uma















quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Journey - Nitin Sawhney




Journey

Every now and then
I fall into deep thought and self-examination
Figuring out
If I really belong in this world

Who am I
What was I born to live
Will I succeed
Or will I fall short
Of my dreams
I know
I’ve got to find a way to move on
Yeah, to a place where I can be stronger
On a journey
Deeper inside
On a journey
Deeper inside my mind

I know I’ve got to find a way to move on
Got to move on
To a place where I can be stronger

Stronger
Stornger
Stronger
Stronger

I’m on a journey
Deep inside my mind
To see if I can find
The answers to all the questions
I’ve been asking myself
For a long time

A long time
A long time

For a long time
I’m on a journey
Deep inside my mind
To see if I can find
The answers to all the questions
I’ve been asking myself
For a long time

A long time
A long time

For a long time

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Vamos?


" Vou lá agora ou espero que venhas comigo? Queres que marque para um dia em que. livre de compromissos, possas também ir comigo? Posso esperar por ti...!"

- Bom dia! Quantas pessoas são? Pode escolher a mesa.


"Posso esperar por ti...! Consigo mesmo esperar por ti...! Vem, não me deixes ir sozinha por ruas e becos que não me devolvem a luz que preciso para dar forma ao caminho. Eu prometo que te entrego o mapa que desenhei na noite em que sonhei com as tuas asas. Não me chames de louca, por favor. Imploro-te que não o faças. Não, por favor, não. Como podes dizer que foi só uma projecção ilusória de signos e elementos estudados por Freud? Negas a evidência do que aconchego na curva das mãos? Olha bem para mim. Mas olha com os olhos abertos e toca-me com os olhos fechados. Acreditas agora?Sentiste? Viste? Ouve-me...eu espero por ti...!"


- Já coloquei a informação no site. Vou expor os quadros esta tarde e marcar a apresentação da exposição para sábado às 16 horas. Entre o almoço e o jantar é sempre a melhor altura. Ele disse que podia vir e está muito entusiasmado com a ideia. Tenho a certeza que já é um sucesso.


" Um gato molhado preso a uma oliveira de vidro. Uma ovelha verde a voar agarrada a um balão cor de rosa. Como te atreves a dizer que são meras alucinações patológicamente identificáveis? Que se lixe o raio do livro da interpretação dos sonhos. Que se lixe tudo o que dizes quando calado me olhas com setas de discordia e de julgamento!! Vai-te lixar com essa conversa da ciência aplicada ao que é cientificamente comprovado! Qual a ciência que aplicas ao sonho que tenho desde criança? Que adjectivo descreve a função de uma enorme bola de fogo branca? O que significa acordar todas as noites com vontade de voltar para casa e de deixar de pertencer aos 4 elementos? Não me olhes assim, por favor. Não me olhes com o desdem da compaixão cientificamente comprovada! Fala-me de Pessoa, de Kabir ou de Confúcio. Solta-me das palavras de Descartes e do seu patético racionalismo empírico. Devolves-me a liberdade quando projectas no éter o alfabeto soletrado pelos sábios do oriente. "Exige muito de ti e espera pouco dos outros". Sim, continua. Estou aqui para ouvir mais dessas palavras...sim, continua. Eu espero por ti...! Eu espero por ti numa enorme bola de fogo branca junto a uma oliveira de vidro e a uma ovelha verde."


Dia 15 de Março de 2010

Hoje uma jornalista perguntou-me qual era o segredo. Eu olhei para ele e, numa troca de olhares cumplices, consegui ler o que os seus lábios suavemente desenhavam no ar. "Exige muito de ti e espera pouco dos outros." Foi o que respondi.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Graça e Coragem, parte II - Ken Wilber


" Telefonei à família. Não me lembro exactamente do que disse, mas foi alguma coisa como: "por favor, venham o mais depressa possível." Telefonei a Warren, o querido amigo que tinha estado a ajudar Treya com acupunctura durante os últimos meses. Mais uma vez não me lembro do que disse. Mas acho que o meu tom de voz disse :"é altura de morrer."



A família começou a chegar bastante cedo e cada membro teve a oportunidade de ter uma última conversa aberta com Treya. O que mais me lembro é de ela dizer como amava tanto a sua família, como se sentia incrivelmente afortunada por ter cada um deles. Era como se Treya estivesse determinada a deixar tudo em "pratos limpos" com todos os membros da família. Da sua combustão só ia resultar a pura cinza, no seu corpo não iam sobrar frases por dizer, não ia restar nenhuma culpa, nem nenhuma responsabilidade. E tanto quanto sei, ela conseguiu.



(...)Por volta das 3.30 da madrugada, Treya acordou abruptamente. A atmosfera era quase alucinogénica. Eu acordei de imediato e perguntei-lhe como estava. " Está na altura da morfina?", disse ela com um sorriso. Em toda a sua provação com o cancro, Treya tinha tomado um total de quatro pastilhas de morfina. "Claro amor, tudo o que quiseres". Dei-lhe uma pastilha de morfina e um comprimido para dormir de efeito moderado e tivemos a nossa última conversa.

"Amor, acho que é altura de partir", começou ela.

"Eu estou aqui, querida."

"Estou tão feliz-". Longa pausa. "Este mundo é tão estranho. É mesmo tão estranho. Mas eu vou-me embora." O seu estado de espírito era de alegria, de humor e determinação.


Comecei a repetir várias das frases "essenciais" provenientes das tradições religiosas que ela considerava tão importantes, frases que ela queria que eu lhe lembrasse até ao momento do fim.

"Descontrai com a presença do que É", comecei eu. "Permite que o Eu se estenda pela vasta imensidão de todo o espaço. A tua mente primordial não pode nascer nem morrer. Não nasceu com este corpo e não morrerá com este corpo. Reconhece que a tua mente é eternamente una com o Espírito."



A sua face descontraiu-se e Treya olhou para mim de uma forma clara e directa.

"Vais-me encontrar?"

"Prometo."

"Então é tempo de partir."

Houve uma pausa muito longa e todo o quarto me pareceu ficar iluminado (...). Foi o momento mais sagrado, o momento mais directo, o momento mais simples que eu já mais conheci. Não sabia o que fazer. Estava simplesmente presente para Treya.


Ela movimentou-se em minha direcção, tentando fazer um gesto, tentando dizer alguma coisa, a última coisa que ela me disse. "És o maior homem que eu já conheci. O meu campeão.", sussurou ela. Debrucei-me sobre Treya para lhe dizer que ela era a única pessoa realmente iluminada que eu conhecera. Que um Universo que tinha produzido Treya, era um Universo sagrado. Que Deus existia por sua causa. Eu queria dizer-lhe tudo isto, mas a minha garganta cerrou-se sobre si mesma. Eu não conseguia falar. Balbuciei apenas, "vou-te encontrar querida, a sério que vou..."



Treya fechou os olhos e, para todos os fins, nunca mais os abriu.

Graça e Coragem, parte I - Ken Wilber

" E assim começaram as mais extraordinárias 48horas da nossa vida em conjunto. Treya tinha decidido morrer. Não havia nenhuma razão médica para ela morrer nesta altura. Com medicação e medidas de apoio modestas, os seus médicos achavam que ela podia viver, pelo menos, mais alguns meses, ainda que num hospital, e sim, depois morreria. Mas Treya já tinha tomado a sua decisão. Ela não ia morrer assim, num hospital, com tubos a saírem dela e com morfina intravenosa contínua e com a inevitável pneumonia e com a lenta sufocação - todas as terríveis imagens que me tinham passado pela cabeça. E eu tinha a sensação estranhíssima de que, independentemente das suas outras razões, Treya ia-nos poupar a todos essa provação. Passaria simplesmente por cima disso, muito obrigado, e morreria agora pacificamente.

Nessa noite, pus Treya na cama, e sentei-me ao lado dela. Ela tinha ficado quase extática. "Vou-me embora, nem acredito, vou-me embora. Estou tão feliz, estou tão feliz." Como um mantra de libertação final, ela continuava a repetir:"estou tão feliz, estou tão feliz..."

Todo o seu semblante se iluminou. Treya brilhava. E mesmo diante dos meus olhos, o seu corpo começou a mudar. No espaço de uma hora, pareceu-me que ela tinha perdido cinco quilos. Era como se o seu corpo, aceitando a sua vontade, tivesse começado a encolher e a afundar-se sobre si próprio. Ela começou a encerrar os seus sistemas vitais, começou a morrer. (...)

Depois, de uma forma abrupta, Treya disse: "Mas não te quero deixar. Amo-te tanto. Não te posso deixar. Amo-te tanto." Ela começou a chorar, a soluçar, e eu comecei a chorar e a soluçar também. Senti que estava a chorar todas as lágrimas todas as lágrimas dos últimos 5 anos, lágrimas profundas que eu tinha contido para poder ser forte para Treya. Falámos demoradamente do nosso amor um pelo outro, um amor que nos tinha tornado a ambos mais fortes, melhores e mais sábios. O nossa carinho um pelo outro tinha-nos proporcionado décadas de crescimento, e agora, sentíamo-nos ambos esmagados face à conclusão de tudo aquilo. Parece tão seco, mas foi o momento mais terno que já conheci , com a única pessoa com quem o poderia ter conhecido.

"Querida, se é altura de partir, então é altura de partir. Não te preocupes, eu vou-te encontrar. Já te encontrei antes, prometo que te volto a encontrar. Por isso, se queres ir embora, não te preocupes. Vai."
" Prometes que me vais encontrar?"
" Prometo."
" Então posso partir. Nem acredito. Estou tão feliz. Isto foi tão mais difícil do que eu alguma vez pensei. Querido, foi tão difícil."
"Eu sei amor, eu sei".

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Relacionamentos, solidão e equívocos


"Os relacionamentos existem para as pessoas aprenderem grandes lições sobre si próprias, sobre a vida, sobre os valores fundamentais da existência. Antes de aceitarmos até às últimas consequências a nossa condição de seres solitários, não temos como estabelecer relações reais com os outros. Nós queremos fugir da solidão, em vez de atravessá-la. Se ao menos pudéssemos aceitá-la, abençoá-la, ela passaria a ser uma conquista da nossa consciência.



E só a partir dessa consciência poderemos ter relações saudáveis uns com os outros, simplesmente porque já não iremos aos relacionamentos para pedir, mas para dar. E essa é a lei do amor humano: amar é dar, é partilhar, é transbordar. Não é pedir, precisar, depender. Não é estabelecer acordos de vampiros para preenchermos um vazio que vivemos como uma carência.



Nas relações pessoais, ou somos mendigos ou imperadores. Quem não atravessa a solidão só pode viver como um mendigo, exigindo atenção, amor, cuidados, cobrando a presença do outro. Vivendo relacionamentos pouco saudáveis, pouco livres, ou que pouco lhe devolvem de si próprio - mas que são o preço a pagar para ter alguém do seu lado, o preço a pagar para não se estar só.



Mas se carregarmos essa dependência emocional imatura e irresponsável pela vida afora, projetando-a para cima de quem julgamos amar, a vida conduz-nos a experiências de sofrimento, de perda, de rupturas amorosas. E é tão-só o Universo, programado que está para a evolução, dizendo-nos: "não podes depender de ninguém, e sempre que o fizeres vais ser recordado pela dor, que não deves viver como um mendigo, mas como um imperador. Dá o teu melhor aos outros sem depender deles para te sentires alimentado. A tua dádiva é a tua maior riqueza, a tua carência a causa do teu sofrimento". E só assim podemos aprender."



Com esta publicação presto uma pequena homenagem ao Nuno Michaels, um querido ser-humano e um excelente astrólogo, autor deste texto que me toca tão profundamente.




sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Um novo dia


Acordei cedo como é hábito em Junho. Já não consigo sair da cama sem antes agradecer o facto de estar viva, sem que antes permaneça quieta numa profunda inspiração e repita pausadamente “este é o primeiro dia da minha vida. Que cor tem o céu? O que são pássaros? A que sabe uma maça? O que se sente quando se faz amor? O que é um abraço?”. Rodeio-me de espanto e sem tentar sequer responder ás perguntas, passo as mãos pelo rosto como se fosse a primeira vez que o estivesse a fazer. Entrego-me à descoberta do tacto, ao mesmo tempo que vagueio pela visão turva do despertar matinal. Esfrego os olhos preparando-os para receber a luz do dia e brinco com as ramelas que tiro do olho direito. Gosto deste gesto, respeito-o como se fosse um ritual, como se elas fossem a placenta da qual me livro para poder ver o mundo com os meus próprios olhos. Depois é sair debaixo dos lençóis e experimentar a audição. Junto ao espreguiçar um audacioso bocejo e um sonoro “BOM DIA. AQUI ESTOU EU ENTREGUE AO TEU DESIGNÍO E A NASCER PARA UM NOVO MUNDO”. Finjo esquecer-me de quem sou e, como se fosse um balão vazio, encho-me apenas de oxigénio. Leve, pronta a ir onde o vento me levar.



quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O arrependimento


Perdi-te no dia em que disseste não saberes se era eu. Fiquei sem rumo no instante em que da tua boca saíram palavras confusas e me deixaste submersa em pensamentos pouco claros e todos eles difusos. Estava decidida a por um ponto final nos mais de três anos de relacionamento. Como pude deixar que me enganasses assim? Como não questionei todos os conceitos e não coloquei a hipótese de que também podia acontecer comigo? Sabes que te amei e que ainda te amo. Pior, sabes que continuo a ter a certeza que só contigo é possível? Naquele dia fingi ser forte e nem uma lágrima me viste, mas a verdade é que desejei morrer no instante que foste. Continuo a não encontrar um sentido para esta vida que sente falta de ti. Não me lembro da última vez que vi a luz do dia e nem penso que comerei hoje ao almoço. Há muito que não sei o que é estar com a família, fazer um jantar com os amigos. Todos pensam que enlouqueci e a verdade é que deixaram de acreditar em mim. Nas primeiras semanas eram telefonemas diários, pedidos para regressar, visitas constantes. Para todas elas a mesma resposta, o silêncio. Compreendo que estejam fartos de ver que não reajo enquanto vagueias por lugares desconhecidos. Já pensei que o melhor era procurar por ti. Por enquanto vou ficando por aqui. Quem sabe entrarás por aquela porta e digas que sou o amor da tua vida, que perdoas os meus erros e que todas as promessas de amor eterno vão ser agora cumpridas.

Hoje aceitei receber a visita da minha mãe. Ficou comigo o tempo suficiente para perceber que ao longo destes dois últimos anos nada mudou. Chora sempre que me vê. Lamenta-se por não compreender este inferno em que vivo e pede-me sempre que lute. Ela tem o peso de uma folha de papel na minha vida, como todos eles, como o mundo. Hoje veio carregada de comida. Bolos de chocolate, iogurte, frutas. Disse-lhe que fosse entregar tudo a uma instituição de caridade, não vou conseguir tocar em nada. Não quero ter que estar preocupada com a preocupação dos outros por mim. Pode roçar o limiar da crueldade humana, mas a verdade é que me estou borrifando para todos. Já pedi que fingissem que morri, a verdade é que não está assim tão longe da realidade. Miguel, porque é que tinhas que estragar tudo? Foi em ti que depositei todos os sonhos de um amor verdadeiro e dói saber que não vou a tempo de resgatá-los. Não há dia que não marque o teu número de telemóvel na tentativa de ouvir a tua voz. Por onde andas que não te sinto?